Tipos de tratamentos oncológicos Dr Daniel Musse
“Doutor, parece que a comida trava bem aqui, no meio do peito.” Essa frase, ouvida em uma tarde de terça-feira no consultório, é o ponto de virada na vida de muitos pacientes. O homem à minha frente, que chamaremos de Ricardo, tinha 58 anos e um histórico de décadas “resolvendo” sua azia com antiácidos de farmácia. Para ele, o refluxo era apenas um vizinho incômodo, mas previsível. O que ele não sabia é que o esôfago, esse tubo muscular que transporta a vida até o estômago, tem uma tolerância limitada a agressões constantes. O câncer de esôfago é um mestre do disfarce. No início, ele não grita; ele sussurra através de uma queimação que parece comum ou de uma tosse seca persistente. Quando a disfagia — a dificuldade de engolir — aparece, o cenário costuma ser mais complexo. No caso do Ricardo, o diagnóstico veio após uma endoscopia digestiva alta com biópsia, revelando um adenocarcinoma. É aqui que a oncologia moderna mostra sua face mais necessária: a integração entre o clínico e o cirurgião. Existem dois protagonistas principais nessa história: o carcinoma espinocelular, muito ligado ao tabagismo e ao consumo de bebidas alcoólicas (especialmente as muito quentes, como o hábito do chimarrão em temperaturas excessivas), e o adenocarcinoma, que nasce da irritação crônica do ácido gástrico. Este último muitas vezes é precedido pelo Esôfago de Barrett, uma condição onde as células do esôfago tentam “virar” células do estômago para suportar a acidez. É um mecanismo de defesa que, infelizmente, pode abrir a porta para a malignidade. Quando sentamos para discutir o tratamento, o estadiamento é nossa bússola. Utilizamos a tomografia, a ressonância e, em casos específicos, o PET-CT para entender até onde a doença caminhou. No caso de tumores localizados, a estratégia costuma ser multimodal. Frequentemente, iniciamos com a quimioterapia e a radioterapia neoadjuvante — ou seja, antes da cirurgia — para reduzir o tumor e aumentar as chances de uma remoção completa e segura.
A cirurgia oncológica de esôfago, a esofagectomia, é um dos procedimentos mais refinados da medicina. Envolve reconstruir o trajeto digestivo, muitas vezes transformando o estômago em um novo tubo. É uma jornada que exige não apenas habilidade técnica do cirurgião, mas uma rede de apoio imensa. Aqui, a equipe multidisciplinar entra em cena: o nutricionista ajusta a dieta para evitar a desnutrição, o fisioterapeuta cuida da capacidade respiratória e o suporte psicológico ampara o paciente e a família diante da mudança radical na forma de se alimentar. Hoje, avanços como a imunoterapia e a terapia-alvo oferecem horizontes novos para casos que, há dez anos, teriam poucas opções. A medicina personalizada nos permite olhar para o DNA do tumor e escolher a “chave” certa para aquela fechadura específica. No entanto, a tecnologia nunca substituirá o olhar atento à saúde digestiva a longo prazo. Cuidar do esôfago vai além de evitar o fumo ou moderar o álcool. Trata-se de respeitar os sinais do corpo. A azia frequente não é normal. O emagrecimento sem causa aparente não deve ser ignorado. A prevenção e o diagnóstico precoce continuam sendo as ferramentas mais poderosas que temos. Ricardo passou pelo tratamento, enfrentou os efeitos colaterais com resiliência e hoje redescobriu o prazer de comer, de forma lenta e consciente. Sua história é um lembrete de que o sistema digestivo é o nosso centro de energia e que o equilíbrio entre o que ingerimos e como vivemos define, silenciosamente, o nosso futuro.